Como elucida a psicanalista Taiza Tosatt Eleoterio, frases como “ele estava estressado” ou “foi só um mau dia” costumam ser usadas para justificar comportamentos que machucam e acabam adiando o reconhecimento de um relacionamento abusivo. Quando o estresse vira explicação permanente, a pessoa passa a ajustar a própria rotina, a medir palavras e a minimizar o próprio incômodo para evitar novos conflitos. Reconhecer essas justificativas sem julgamento é um passo importante para olhar a situação com mais clareza e buscar apoio.
Por que o estresse parece uma explicação convincente?
O estresse é uma experiência comum a quase todas as pessoas. Prazos, dívidas, cansaço, preocupações com a família e problemas no trabalho fazem parte da vida adulta, e é compreensível que alguém, em um dia difícil, fique mais irritado ou menos paciente. Por isso, quando um comportamento agressivo é atribuído ao estresse, a explicação soa razoável e até generosa.
Taiza Tosatt Eleoterio aponta que é essa aparência de normalidade que torna a justificativa tão convincente. Quem convive com a situação quer acreditar que se trata de algo passageiro, e a ideia de que “isso vai passar” traz alívio. Muitas pessoas também sentem empatia pelo sofrimento do outro e preferem compreender a confrontar, o que é um gesto de cuidado, não de fraqueza.
Além disso, a justificativa costuma vir acompanhada de gestos de carinho, pedidos de desculpa e promessas de mudança. Essa alternância faz com que os episódios difíceis pareçam exceções dentro de uma relação que, em outros momentos, é afetuosa. Como resultado, a pessoa tende a esperar que o estresse diminua, em vez de questionar o padrão.
Quando a justificativa se repete: como o padrão se forma?
Um episódio isolado de irritação não define uma relação. O que merece atenção é a repetição. Quando as mesmas explicações aparecem sempre que há uma ofensa, uma humilhação ou um comportamento controlador, elas deixam de ser circunstância e passam a funcionar como um mecanismo que protege o comportamento e retira a responsabilidade de quem o pratica.
Taiza Tosatt Eleoterio nota que esse padrão costuma se organizar em torno de um ciclo. Há momentos de tensão, seguidos de episódios em que o comportamento se manifesta, e depois de uma fase de arrependimento ou de afeto, em que as justificativas ganham força. Esse ciclo da violência pode se repetir muitas vezes, e a cada volta a pessoa se acostuma um pouco mais com a ideia de que precisa evitar o que “provoca” o estresse do parceiro.
Com o tempo, a rotina se reorganiza em função do humor do outro. A pessoa passa a evitar assuntos, a antecipar reações e a abrir mão de planos para prevenir conflitos. Esse esforço constante pode ser confundido com paciência ou compreensão, mas, na prática, indica que o ambiente deixou de ser seguro para se expressar livremente.
O papel da dependência emocional e do medo de piorar a situação
Em situações de violência doméstica, nem sempre é fácil reconhecer um padrão quando existe vínculo afetivo, filhos, projetos em comum ou dependência financeira. A dependência emocional, em particular, faz com que a opinião do parceiro ganhe um peso desproporcional, e a pessoa passa a duvidar da própria percepção. Se o parceiro diz que “está estressado” e que “não é nada demais”, ela tende a aceitar essa versão para preservar a relação.
O medo de piorar a situação também pesa. Muitas pessoas sentem que questionar a justificativa pode gerar novos conflitos ou afastar quem elas amam. Preferem, então, manter o silêncio e esperar. Esse comportamento é compreensível e não deve ser julgado, pois é uma estratégia de proteção desenvolvida em um contexto de tensão.
Em contextos de relacionamento tóxico, esse cenário pode ser ainda mais confuso, sinaliza Taiza Tosatt Eleoterio, pois o afeto e o desgaste convivem lado a lado. A pessoa sente que ama e, ao mesmo tempo, que sofre, e a justificativa do estresse oferece uma narrativa que permite conciliar as duas coisas, ainda que temporariamente.
Estresse explica, mas não justifica: a diferença entre contexto e responsabilidade
Reconhecer que alguém está sob pressão é diferente de aceitar que isso autorize ofensas, humilhações ou controle. O estresse pode ajudar a entender o contexto de um comportamento, mas não retira a responsabilidade por ele. Pessoas que enfrentam dificuldades semelhantes escolhem, a cada situação, como agir, e muitas lidam com o cansaço sem machucar quem está por perto.
Essa distinção é importante porque protege quem sofre de uma armadilha comum: a ideia de que, se tiver paciência suficiente, o problema desaparecerá. Quando o comportamento é tratado como consequência inevitável do estresse, a responsabilidade passa a recair sobre quem convive com a situação, que se esforça cada vez mais para não “causar” o descontrole do outro.
Também vale lembrar que o estresse costuma ser usado como justificativa para episódios que, em outros ambientes, o parceiro consegue controlar. Uma pessoa que se mantém cordial no trabalho ou diante de amigos e perde a paciência apenas em casa mostra que há escolha envolvida. Perceber esse contraste pode ajudar a olhar para o padrão com menos culpa e mais clareza.
Como a rede de apoio pode ajudar a enxergar o padrão sem julgar?
Conversar com alguém de confiança é uma das formas mais úteis de enxergar a situação com distanciamento. Familiares, amigas, colegas ou pessoas da comunidade podem ouvir sem pressionar e ajudar a perceber se as justificativas se repetem. Muitas vezes, basta ouvir uma pergunta simples, como “isso tem acontecido com frequência?”, para que a pessoa comece a ver o conjunto.
A rede de apoio comunitário e os serviços de assistência social e de acolhimento também podem oferecer orientação sobre direitos e caminhos de proteção, no momento em que a pessoa se sentir pronta. O mais importante é que essa aproximação seja feita sem cobranças, respeitando o tempo de quem vive a situação e evitando frases que soem como acusação.
Taiza Tosatt Eleoterio orienta que quem deseja apoiar evite perguntas como “por que você ainda aceita isso?” e opte por expressões de cuidado, como “estou aqui se você quiser conversar”. Esse tipo de postura mantém a porta aberta e permite que a pessoa recorra ao apoio quando sentir que é o momento.
Olhar o padrão com clareza e sem culpa
Com esse panorama, é possível compreender que justificativas como o estresse têm um forte poder de convencimento e adiam o reconhecimento de situações que causam sofrimento. Reconhecê-las não significa duvidar de quem as aceita, e sim oferecer ferramentas para que cada pessoa possa avaliar o que vive com mais segurança e sem se culpar pelo tempo que levou para perceber.
Taiza Tosatt Eleoterio acrescenta que a clareza costuma chegar de forma gradual, a partir da escuta, da informação e do apoio de pessoas confiáveis. Com acolhimento e respeito ao ritmo de cada um, fica mais viável transformar a dúvida em reconhecimento e, a partir dele, buscar caminhos que protejam a saúde emocional e o bem-estar de quem está em uma relação difícil.

