Especialistas ouvidos pela Agência Brasil explicam por que as novas tarifas americanas devem pesar mais sobre setores específicos do que sobre o resultado geral do comércio exterior.
As novas tarifas impostas pelos Estados Unidos sobre produtos brasileiros já têm gerado preocupação entre exportadores, mas a avaliação de especialistas é de que o efeito sobre as contas externas do país será menor do que se imagina. O chamado tarifaço deve provocar impacto limitado sobre a balança comercial brasileira, embora setores específicos da indústria sintam o peso da medida, já que ela atinge apenas 18% das exportações nacionais destinadas ao mercado americano. Agência Brasil
Nem todos os setores foram afetados da mesma forma. Segundo especialistas consultados pela reportagem, os segmentos que mais devem perder competitividade são aqueles que dependem fortemente do mercado americano e enfrentam dificuldades para redirecionar suas vendas para outros países, entre eles máquinas, aço, alumínio, calçados e automóveis. Agência Brasil
A explicação para o impacto limitado sobre o resultado agregado do comércio exterior passa por um detalhe estrutural da pauta exportadora brasileira. Uma pesquisadora do Instituto Brasileiro de Economia da Fundação Getulio Vargas, ouvida pela Agência Brasil, avalia que dificilmente o tarifaço vai alterar o desempenho agregado da balança comercial, uma vez que os Estados Unidos já respondem por uma fatia menor das exportações do país. Ela lembra ainda que o superávit comercial brasileiro vem principalmente de commodities, e que justamente esses produtos, como soja, suco de laranja e carnes, ficaram fora da cobrança adicional.
Como as tarifas foram calculadas e quem fica de fora
O peso da tarifa, no entanto, não é uniforme entre os produtos taxados. As tarifas foram aplicadas com base na Seção 301 da Lei de Comércio dos Estados Unidos de 1974, instrumento usado pelo governo americano para adotar medidas comerciais unilaterais, e a alíquota padrão de 25% chega a 50% em 24% dos itens atingidos, porque nesses casos a nova cobrança se somou a tarifas já existentes. Agência Brasil
Essa sobreposição de tarifas concentra o impacto em um grupo específico de setores. Entre os mais afetados estão aço, alumínio, automóveis, máquinas, equipamentos, calçados e produtos de madeira, enquanto aeronaves, componentes aeroespaciais, petróleo, soja, café, carne bovina e suco de laranja permaneceram fora das sobretaxas. Agência Brasil
O comércio entre os dois países já vinha perdendo fôlego antes mesmo da nova rodada de tarifas. No primeiro semestre de 2026, de acordo com dados do Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços, as trocas comerciais entre Brasil e Estados Unidos somaram cerca de US$ 36,4 bilhões, uma queda de 12,8% frente ao mesmo período do ano anterior, com o Brasil registrando déficit de US$ 1,5 bilhão nessas transações.
O que muda para a indústria e para o consumidor
Esse cenário de déficit bilateral não é exatamente novo, mas chama atenção justamente por acontecer num momento de tensão comercial. O déficit brasileiro e o correspondente superávit americano se mantêm apesar do encolhimento do comércio entre os dois países desde o ano passado, o que reforça a leitura de que a relação comercial já vinha se reduzindo antes da imposição das novas tarifas.
Para o consumidor final, o efeito mais provável não é sentido no preço de produtos importados dos Estados Unidos, e sim de forma indireta, através do desempenho de indústrias exportadoras que empregam mão de obra em diversos estados. Setores como o de calçados e o automotivo, que já enfrentam concorrência internacional, tendem a acompanhar de perto qualquer sinal de retaliação ou de negociação entre os governos brasileiro e americano nas próximas semanas.
O governo brasileiro já sinalizou que pretende manter o diálogo com Washington sobre o tema, buscando alternativas para reduzir o impacto sobre os setores mais expostos. Enquanto isso, a diversificação de mercados, com destaque para a China como principal destino das exportações brasileiras, segue sendo apontada como o principal amortecedor desse tipo de medida unilateral.
Fonte:
Agência Brasil
