Pesquisa inédita ouviu mais de 5 mil propriedades e mostra como clima, produtividade e planejamento podem definir o resultado da cafeicultura mineira.
A produção de café arábica em Minas Gerais pode alcançar 33,4 milhões de sacas em 2026, segundo a primeira Pesquisa Safra Café realizada pelo Sistema Faemg Senar. O levantamento, divulgado em setembro, chama atenção não apenas pelo volume projetado, mas pela metodologia: foram coletadas informações diretamente em 5.155 propriedades rurais de 269 municípios, cobrindo aproximadamente 90% da produção de café arábica do estado.
Para o produtor mineiro, a principal dúvida não é apenas quanto café Minas vai colher, mas o que esse número significa para preços, planejamento e renda dentro da propriedade. A pesquisa chega em um momento em que clima, custos de produção e comportamento do mercado continuam pesando sobre as decisões dos cafeicultores. O novo levantamento também oferece uma fotografia mais próxima da realidade das lavouras, especialmente em regiões como Sul de Minas, Cerrado Mineiro, Matas de Minas e Chapada de Minas.
O que os 33,4 milhões de sacas significam para Minas Gerais
A estimativa de 33,4 milhões de sacas representa um avanço de cerca de 32,5% em relação à estimativa da Conab para a safra mineira de 2025. O número também está 1,8% acima da projeção divulgada pela própria Conab em maio e 4,7% superior à estimativa apresentada pelo IBGE em março. A diferença entre os levantamentos não significa necessariamente que uma instituição esteja certa e outra errada, porque as metodologias e os momentos de coleta são diferentes. A própria Faemg Senar destaca que sua pesquisa pretende complementar as estatísticas já existentes com informações obtidas diretamente no campo.
Esse detalhe é importante porque Minas possui uma cafeicultura extremamente diversificada. Há grandes propriedades mecanizadas, pequenas propriedades familiares, áreas montanhosas e sistemas produtivos com diferentes níveis de tecnologia e manejo. Ao ouvir milhares de produtores em centenas de municípios, a pesquisa consegue incorporar parte dessa diversidade à estimativa estadual. Para quem produz café, isso ajuda a transformar um número estadual em uma referência para pensar produtividade, necessidade de mão de obra, comercialização e investimentos na próxima etapa da atividade.
A dimensão econômica do café também explica por que qualquer mudança na produção interessa a todo o estado. O Governo de Minas informa que o café é o principal produto da pauta de exportações do agronegócio mineiro e responde por parcela expressiva do valor exportado pelo setor. Além da receita das propriedades, a cadeia movimenta cooperativas, armazéns, transportadoras, torrefadoras, comércio de máquinas, assistência técnica e empregos em diferentes municípios.
Por que clima e produtividade continuam no centro da preocupação
A pesquisa da Faemg Senar mostra que a quantidade produzida não pode ser analisada separadamente das condições climáticas enfrentadas pelas lavouras. O levantamento considera informações sobre clima, condições fitossanitárias, produtividade, ritmo da colheita, volume já produzido e carga ainda existente nas plantas. Nos últimos ciclos, ondas de calor, irregularidade das chuvas e precipitações durante períodos importantes da produção aumentaram a necessidade de planejamento por parte dos cafeicultores.
Na prática, uma projeção estadual elevada não significa que todas as propriedades terão o mesmo desempenho. Uma fazenda com boa condição de solo, manejo adequado, acesso à irrigação ou maior capacidade de investimento pode responder de maneira diferente de uma propriedade que sofreu com estiagem, excesso de chuva, doenças ou limitações de mão de obra. Por isso, o produtor precisa olhar os dados gerais como referência e cruzá-los com as condições específicas de sua região e de sua própria lavoura.
A questão da produtividade também está ligada ao uso de tecnologia e boas práticas. A Conab apontou, em sua primeira estimativa nacional para o café de 2026, que condições climáticas favoráveis e avanços no manejo contribuíam para uma expectativa de produtividade maior no país. Minas, como principal produtor nacional de café, tem peso decisivo nesse resultado.
Para o cafeicultor, isso significa que tecnologia não deve ser entendida apenas como máquinas caras ou sistemas sofisticados. Monitoramento da lavoura, análise de solo, controle fitossanitário, gestão da água, previsão climática e organização dos custos também fazem parte de uma estratégia tecnológica. Em regiões onde o relevo dificulta a mecanização, soluções de monitoramento e planejamento podem ser especialmente importantes para aumentar eficiência sem depender exclusivamente da expansão da área cultivada.
Como o novo levantamento pode ajudar o produtor a planejar a próxima safra
Um dos objetivos declarados pela Faemg Senar é transformar os dados coletados no campo em uma ferramenta de planejamento. A entidade destaca que informações estatísticas mais próximas da realidade podem ajudar o produtor a decidir se deve ampliar o plantio, investir em produtividade, reduzir custos ou modificar estratégias de manejo. Como a pesquisa deve ser ampliada nos próximos anos, a tendência é que seja criada uma série histórica própria capaz de mostrar mudanças na cafeicultura mineira ao longo do tempo.
Esse acompanhamento pode ser particularmente útil para pequenos e médios produtores, que precisam tomar decisões com margem financeira mais limitada. Conhecer a tendência de produtividade da região, comparar custos e observar as condições climáticas permite planejar compras de insumos, contratação de trabalhadores, investimentos em equipamentos e momento de comercialização. O dado de produção estadual, portanto, não determina sozinho o preço recebido pelo produtor, mas ajuda a compreender o tamanho da oferta e o ambiente em que a negociação ocorrerá.
Outro caminho relevante é a valorização da qualidade e da rastreabilidade. O Governo de Minas mantém o Certifica Minas Café, programa voltado à adoção de práticas sustentáveis, rastreabilidade, melhoria da qualidade e acesso a mercados. A certificação pode contribuir para que propriedades estejam preparadas para compradores que exigem informações cada vez mais detalhadas sobre origem, sustentabilidade e processo produtivo.
Essa preocupação também ganhou dimensão internacional com novas exigências de rastreabilidade para produtos agrícolas comercializados na União Europeia. A Conab disponibiliza uma plataforma específica para o setor cafeeiro que integra bases públicas e dados de produção e pode auxiliar produtores, cooperativas e empresas no atendimento a requisitos relacionados à origem e à ausência de desmatamento. Para o café mineiro, que possui forte inserção no mercado externo, acompanhar essas exigências pode se transformar em vantagem competitiva.
A estimativa de 33,4 milhões de sacas coloca novamente a cafeicultura mineira no centro das atenções e mostra a força produtiva de um setor espalhado por centenas de municípios. Mais importante do que tratar o número como resultado definitivo é utilizá-lo como instrumento de planejamento, considerando diferenças entre regiões, propriedades e sistemas de produção. Para o produtor, acompanhar produtividade, clima, custos, qualidade e mercado continua sendo essencial para transformar uma boa safra em resultado financeiro.
A pesquisa da Faemg Senar também sinaliza uma mudança importante: decisões do campo dependem cada vez mais de informação confiável e atualizada. Em um cenário de mudanças climáticas e exigências crescentes dos compradores, conhecer melhor a própria lavoura pode ser tão importante quanto acompanhar as cotações do café. Para Minas Gerais, onde a atividade movimenta uma extensa cadeia econômica, melhorar a qualidade dos dados pode ajudar não apenas os produtores, mas cooperativas, municípios e empresas que dependem do café para gerar renda e empregos.
Fontes:
Sistema Faemg Senar — Pesquisa Safra Café 2026
Governo de Minas — Certifica Minas Café
Conab — Produção de café na safra 2026
Conab — Plataforma Parque Cafeeiro

